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Tua camisa verde


Eu te vi chegando, não nego. Sua presença sempre foi algo impossível de ser ignorado. Mas nem nos meus pensamentos mais loucos tu ocupavas tanto espaço. Mas tu entraste, bichinho. Tu entraste na minha vida e reivindicaste um espaço que já sabias que era teu, ainda que eu não soubesse.
Tu chagaste daquele teu jeito que sempre falo. Flertando sem nem perceber. E eu fui flertando junto sem nem querer. Tu tens esse dom. Causas um rebuliço não só nas várias meninas que te falo, mas em mim, naquela época e ainda agora. Tu fazes eu dar sorriso bobo no ônibus e suspeito que até em um enterro. Me causas uns picos de felicidade que eu até estranho.
Tu foste ficando de um jeito só teu também. Uma mensagem aqui, uma conversa ali, um momento que você se fazia presente. Aos poucos tua rotina foi cabendo na minha e quando eu vi a gente já vivia uma vida a dois. Tudo natural e ao mesmo tempo reivindicado. Eu não estava disposta a te dar isso, mas tu conseguiste e eu não posso te negar.
Agora eu me encontro vestindo tua camisa verde que é minha preferida. Aquela que tu usaste na primeira vez que jantamos fora. Me encontro cheirando a tu no teu quarto que só cheira a tu também. E eu quero mais.
Eu quero tu, bichinho. Quero casar, ter filhos e discutir se teremos gato ou cachorro. Quero as minhas e as tuas manias misturadas mesmo que de começo nenhum ceda fácil. Eu quero tu. Tua camisa, teu cheiro e teu jeito no nosso quarto, na nossa vida. No meu coração.

Eu não sabia ser amada


Acordei feliz dia desses. E continuei acordando assim nos vários dias seguintes. Agradecia até pelos dias de chuva que me faziam chegar ensopada no trabalho. Todos os dias, assim que eu pegava meu celular, tinha um bom dia calmo e sereno de alguém que finalmente estava ao meu lado. Eu não podia estar mais feliz. Mas ainda assim algo parecia estar errado.
Eu sentia falta daquela paixão louca e desenfreada, do coração apertado que sempre me fazia crer que amava quem me causava isso, do medo de perder. Eu sentia falta da montanha russa que sempre me fez odiar gostar de alguém. Me desesperei. O que eu faria sem aquilo tudo? Por que tudo aquilo tinha sumido?
Criei todas as explicações possíveis. Cogite até que tudo pudesse ter sumido, ainda que cada parte de mim se sentisse a mais feliz do mundo quando visse a pessoa. Quase acabei com tudo, por pouco não tornei aquela calma em um vendaval que levaria a pessoa de mim. Até que um dia, depois de momentos que desejei que fossem eternos, conclui: eu não sabia ser amada, eu ainda não sei tão bem ser amada.
Cresci com o ideal de amor maluco, cheio de idas e vindas. Com o amor que nos deixa instável, insegura, com medo de tudo. Pra mim, amor sempre foi sinônimo de medo. Amar e ser amada na calmaria era algo impossível. Eu não sabia o que era de verdade o amor.
Pedi desculpas. Me recompus. Contei o que me afligia. Causei certo choque na pessoa. Como era possível que eu, tão informada e resolvida, pudesse não saber ser amada? Não consegui responder à pergunta da pessoa com palavras que fizesse sentido. Até então, eu acreditava que sabia, cria que entendia. Achava que sabia de tudo até o amor vir de verdade e já de início me mostrar que eu não sabia de nada.
É possível existir amor na calmaria, na tranquilidade. Na verdade, amor pra vida toda só vale a pena se for trazer leveza e facilidade. Eu não sabia ser amada, e sei que várias outras pessoas também não sabem. E eu espero, com todo meu coração, que todos conheçam o amor de verdade.

Catarina



Catarina olhou-se no espelho pela enésima vez e não gostou do que viu.
Ainda assim Catarina resolveu tentar, afinal, Catarina não desistia fácil. Mas ela também não gostou de socializar.
Catarina tentou apenas escutar, se manter acompanhada mesmo que não sendo notada.
Catarina tentou tanto, tentou tanto. Catarina não queria de nenhuma maneira desistir, mas às vezes é tão difícil, né?
Me deixa te contar, Catarina. Algumas vezes tá tudo ruim mesmo. Nem todas as vezes você vai amar o que vê. Nem todo mundo vai te entender.
Me deixa te falar, Catarina. Hoje também foi um daqueles dias em que também tentei, mas não deu. Mas amanhã, quem sabe? Um dia a gente pode até se encontrar.
Acho que tudo pode melhorar.

Agora eu sei




Eu não queria enxergar, sabe? Fechei meus olhos, tampei meus ouvidos e me fiz de louca. Tudo isso pra não reconhecer que eu nunca fui prioridade pra você. Caminhei sem rumo e se via um conhecido, mudava de caminho, só pra que ninguém me falasse o que pra mim, era duro perceber: no fundo, eu nunca importei de verdade pra você.
Doeu, todos os dias doía mais um pouco cada vez que eu, nos detalhes, via a verdade. Desejei, mais até do que torci pra estar errada, que você escancarasse de vez, gritasse a verdade e fosse embora sem falar mais nada. Pensando bem, eu te implorei pra que fizesse isso, e não foi uma vez. Meus últimos dias achando que tinha lugar na sua vida foram cheios de dores e pedidos pra que você fosse sincero e corajoso pra me tirar dali de vez.
Dói lembrar das vezes que te contei o que via e sentia, numa tentativa falha de que você tivesse um pouco de compaixão, me desse o mínimo de importância e assim me liberasse de vez. Machuca de forma brutal pensar nas vezes em que você falava coisas bonitas e me fazia acreditar que eu estava errada em ficar insegura, só pra depois me ignorar e agir como se nunca tivesse dito nada daquilo. Tantas e tantas vezes me perguntei se não era eu e meus dramas me sabotando outra vez, que na verdade você queria ficar e eu importava. Você repetiu que eu importava tantas vezes que não só tu acreditaste na mentira, mas eu também.
Em momentos como agora eu fico me questionando o que te fiz, o que foi que causei dentro de ti pra que você me enganasse por tanto tempo. Que tipo de coisa fui pra você pra que abrir mão de mim fosse algo tão negado por ti. Você não me queria de verdade, sempre soube que eu não seria sua escolha, nunca acreditou na gente. Eu nunca vou entender o motivo pelo qual você me segurou por tanto tempo, e mesmo depois de tudo, tento não ver tudo isso como algo sádico da sua parte. Talvez eu esteja me fazendo de louca novamente, mas eu não acredito que foi por alguém assim que me apaixonei.
Uma vez, em um desespero por repostas, chamei o que tivemos de paixão. Você me corrigiu dizendo que odiava o termo e o sentimento da paixão, porque a mesma era passageira, algo leviano e falso. Uma parte de mim quebrou-se inteira ao escutar aquilo, e não porque eu discorde de você, mas porque sabendo da sua certeza de que não foi aquilo, então não restava mais nada. Eu me quebrei e me refiz tantas vezes enquanto esperava por suas respostas. Me forcei a me manter de pé mesmo que eu não aguentasse mais nada, só esperando você, ao menos uma vez, me responder algo com certeza. Poucas vezes me forcei a ser tão forte.
Não faz tempo que percebi meu lugar na sua vida – que na verdade é fora dela -. Faz poucas horas desde minha conclusão. Esse texto tá sendo escrito com lágrimas. Choro cheio de dor, sim. Mas um choro também de alívio, descanso por saber que independente das suas palavras, eu enxerguei, e por mais que doa não vou mais me enganar, afinal, agora já sei: eu nunca importei pra você.

Deixa eu te contar


Queria começar te pedindo desculpa pelos meus medos e meus traumas. Ou meus traumas e medos, acho que essa ordem faz mais sentido. Cada briga e cada traição que vi no passado me deixaram amedrontada demais para embarcar rapidamente em relacionamentos. Desculpe-me por ser esse poço de traumas e medos que você sem saber se apaixonou.
Também quero te dizer que perdoou seu poço. Esse que é cheio de medos e traumas também, e que parece ainda mais fundo que o meu. Desculpo seus entraves, suas desculpas em momentos errados e suas recuadas que me deixam confusa e incapaz de confiar de verdade. Não te culpo porque sei como é ser algo assim, te desculpo porque vejo em ti muito de mim. E eu sei como é ruim.
Perdão por todas as falas sarcásticas, respostas atravessadas e conclusões precipitadas que te tiram do sério. Por todas as vezes que meu humor ácido – que nada mais é que uma forma de proteger – te jogou pra longe e deu a entender que não queria que você voltasse. É piegas dizer, mas a verdade é que nada disso é por querer. Sinto medo de me perder em ti, ou que você se perca de mim. Perdoe-me por também ter muita acidez nesse poço.
E eu te desculpo por seu jeito impaciente e por todas as vezes que até hoje você não me ouviu por ter dificuldade de perder a razão, como se tivesse que se agarrar em algo. Pelas vezes que mascarou a importância das coisas, tratando-as com indiferença. Mesmo que algumas dessas coisas tenham sido minhas palavras. Te desculpo porque também sei o que reagir de forma bruta ao medo. Tentar se enganar nessas horas e dizer que não teme é tudo que desejo. Falo isso porque essa sensação eu conheço.
Tenta relevar as vezes que tentei te afastar, pelos planos mirabolantes que já fiz na minha cabeça e que graças a Deus a maioria nem executei. Por todas as vezes que te falei que aquelas pessoas eram melhores pra você, como se eu pudesse decidir sua vida. Pelos ditos e não ditos, aqueles que te tiravam da minha vida ou me expulsavam da sua. Se der, releve mais esse balde de água que tem no meu poço.
E eu sei que isso tá parecendo uma troca, mas não é. Só que eu queria te falar que também desculpo as vezes que você me afastou. As vezes que calou e preferiu guardar pra si todos os seus problemas, mesmo que esses problemas estivessem te levando pra longe de mim. Cada um com seus motivos, a gente já foi e já deixou o outro longe. Eu nem posso e nem devo te culpar por muitas vezes achar que longe faria melhor a mim, eu penso muitas vezes o mesmo sobre ti.
Mas a prova que isso não é uma troca, te falo aqui, nesse parágrafo. Eu ainda não consigo te desculpar totalmente por não se decidir. Por todas as vezes nesse tempo todo que você arrumou algo para colocar entre a gente e não decidiu qual das coisas era mais importante. Por tudo que já pesou mais que nós, por mais que você não assuma. Pelas palavras não ditas que quase fizeram a gente se perder totalmente, e pelas ditas quando você não tinha certeza. Já tentei, mas ainda não sei se te perdoou por nunca ter me feito primeira em algo na sua vida. Por jamais querer escolher e por sempre querer segurar todas as coisas, mesmo sabendo que isso é impossível. Queria, mas não sei se te desculpo por me colocar na sua estante, mesmo que involuntariamente. Te desculpo, relevo e perdoou um monte de coisa, mas não esse tipo de indecisão.
Todo esse texto é pra dizer que te entendo, que te aceito e que te amo. Mas pra contar que nem o amor cobre tudo, ainda mais se você escolhe deixa-lo guardado, recorrendo quando acha que deve, mas quase sempre guardando-o de enfeito na sua estante.

Eu queria amar você


Não estamos nos apaixonando. Eu ainda não te quero do meu lado sempre, não desejo seus beijos mais que todos os outros, sequer quero desejar isso um dia. Os dias estão passando e eu não estou me apaixonando.
É estranho dizer, ainda mais quando se é o tipo de pessoa que espera sempre mais do que deveria, mas os dias passam e a única coisa que quero é ter você fisicamente. Porque isso você é: é quem eu penso em ligar quando a carência aperta, quem eu desejo pra beijar sem complicações, quem me vem à mente quando tô com vontade de estar nos braços de alguém. Mas é só isso, e tá tudo começando a me entristecer.  
Eu queria me apaixonar por você, garoto. Queria você apaixonado por mim também. Eu tô sentindo falta de amar e queria amar você, por mais que nós dois saibamos a burrice que seria isso. Eu não quero mais me sentir vazia assim que a gente se deixa.
Eu queria mesmo era gostar de você. 
Mas você não me deixa, tu não me permites, você sempre me avisa. Pela primeira vez eu consigo seguir com uma amizade colorida e por isso não dá mais certo. Porque eu quero amar, e eu queria amar você, mas isso não vai acontecer.


Sobre os medos



Alguns anos atrás, enquanto viajava com uma turma de pessoas que eu me perguntava como havia parado alí, lembro de ter visto uma pichação que dizia: “o que é pior, o medo ou a incerteza?” Se a viagem até aquele momento não tinha mexido nada comigo, aquela frase tinha me tocado de forma que cheguei em casa com a sensação de que tinha valido a pena.
Sempre fui – e talvez nunca deixe de ser – muito cautelosa. Minha infância e adolescência foram marcadas por amigas que diziam que eu era chata demais por sempre puxá-las de volta a terra quando alguma delas resolvia viajar na maionese. Sou a garota que pesa os prós e os contras e acaba até dando um peso maior ou segundo. Quase nunca tomo decisões precipitadas, não arrisco quando tenho muito em jogo. Mas já faz alguns dias que ando meu perguntando: isso tudo é cuidado ou medo?
Quantas vezes a gente não chama de cautela o que no fundo a gente sabe que é medo? Quantas vezes não negamos, até pra nós mesmos, que queríamos sim fazer tal coisa, mas somos medrosos demais pra isso? Sabe, eu me perguntei essas coisas e vi que havia sim cuidado, mas também havia muito medo. Houve coisas e ainda há coisas que não vivi e não vivo por medo. E tantas delas eu gostaria e ainda tenho desejo de fazer.
A melhor forma de encerrar um assunto é dando um closure – algo como encerramento em português- a esse assunto. Você se sente livre, limpa, pronta para outro começo. Não há nada que pese mais do que um “e se”. E a incerteza é isso: uma soma de e se’s que nunca terminam, afinal, uma atitude leva a outra. Eu tenho minha cota de incertezas, muitas dessas pesadas demais nos dias ruins. Algumas que eu daria tudo pra poder voltar no tempo e ter vivido, me jogado de cabeça, por mais que o medo fizesse aquilo parecer grande demais. Essas a gente não esquece nem nos dias bons, porque muitas coisas as lembram, e aí vem a vontade e a saudade de algo que nem se viveu.
Medo não é de todo ruim. Ele às vezes faz bem, te deixa realmente mais cuidadoso. Mas temer apesar de toda vontade e das grandes oportunidades é terrível. Suas escolhas realmente definem quem você é, quando se toma um caminho automaticamente abre-se mão de outro. Do que você vem abrindo mão por falta de coragem?
Que nesse ano a gente possa se abrir para as oportunidades que virão, que se der, a gente repare as decisões de antes e viva o que não vivemos. Que o medo nos torne observador, mas não nos congele. Nesse novo ciclo só desejo que possamos vencer o medo e sair da inércia que impusemos a nós mesmos, porque o mundo é grande, a vida é longa e as experiências que vivemos é que fazem tudo valer a pena.

O que aprendi deixando de morar com meus pais



Antes dos meus dezoito anos, eu sonhava que esse dia chegasse porque tinha colocado na cabeça que ter o dígito 1 junto ao dígito 8 na idade faria minha vida mudar para sempre. Ela não mudou. Eu não deixei de precisar dos meus pais, eu não sai por ai fazendo várias coisas loucas, eu não deixei de ter que chegar na hora que minha mãe e eu combinamos. Nada havia mudado. A maior idade não mudou a forma como minha vida andava e também não mudou meus gostos e o que eu pensava. Na verdade, eu era a mesma menina de sempre, menina essa que era agarrada a mãe e que ninguém dizia que seria capaz de se virar sozinha. Mas aí, alguns anos depois, eu saí de casa.
Não faz muito tempo que deixei de morar com minha família, embora essa mudança tenha mexido tanto em mim que há dias em que sinto como se já tivesse se passado anos. Sair da casa dos pais faz isso com você, te vira de ponta cabeça e faz contigo uma espécie de plano JK ainda mais rápido, te fazendo amadurecer anos, mas em poucos dias.
Abusando ainda mais das analogias, sinto que sair da casa dos pais é algo semelhante ao pássaro que sai do seu ninho e é posto pra voar mesmo que ele ache que não esteja tão pronto assim. Me mudei com todo mundo, inclusive eu, duvidando da minha capacidade de voar sem algum familiar por perto. E eu senti medo. Eu sinto medo. Talvez eu nunca deixe de sentir medo.
Medo. Acho que isso resume a mudança. Você tem medo de tocar fogo na casa porque nunca foi a melhor cozinheira. De que o dinheiro - agora administrado apenas por você - não chegue até o fim do mês.  Você tem medo de sentir medo porque não tem ninguém pra te dar a mão. Teme mudar. Você tem medo de deixar de ser você.
Eu me mudei e passei a morar com outras duas pessoas que eu não conhecia. A gente nasce e cresce tendo nossa vida moldada pela vida dos nossos pais. Os valores deles quase sempre são os nossos, assim como os gostos e personalidade. Daí você sai da casa deles e começa a conviver diariamente com outras que tiveram uma criação totalmente diferente da sua. E isso te muda. Você sai da sua bolha e começa a se misturar vendo algumas coisas nunca vista. Com toda certeza isso te muda.
Mas tem mais coisas que isso.
Sair da casa dos pais é às vezes olhar para as paredes da sua nova casa e não reconhecer nada, acordar no meio da noite procurando pela tomada que já não fica no mesmo lugar que antes. É ter um dia ruim e pensar que precisa conversar com sua mãe, e ficar triste ao lembrar que ela não vai estar em casa te esperando. Mudar de casa é bem ruim alguns dias. Você pode ter planejado isso várias vezes, mas só quando passar por essa situação é que você vai entender. Afinal, são mudanças que você passa sozinho, do seu jeitinho. E embora seja difícil, eu também digo que é libertador.
Por mais doloroso que seja no início e nos dias difíceis da vida, morar sem seus pais te liberta pra que você faça coisas certas e quebre muito a cara fazendo as erradas. Longe da sua primeira casa você finalmente entende os conselhos dos pais, e mesmo com o coração em pedaços e com os olhos cheios de lágrimas, você entende que certas coisas são necessárias. Agora sim você entende porque não fazer aquilo.
Sair da casa dos pais, morar sozinho ou com pessoas fora do teu convívio é difícil, é cheio de saudade e algumas vezes solitários. Mas sair de casa é por vezes engraçado, um amadurecimento por mil vezes multiplicado, morar sozinho é ter teu horizonte ampliado.

Tu e minhas lentes


Eu poderia escrever sobre nossos momentos preferidos por mim citando a forma como eu amo quando meus cabelos ficam enrolados nos teus dedos, ou como só você consegue me deixar arrepiada com um beijo no rosto. Poderia falar da maneira que você me deixa quando morde minha orelha e sussurra algo, ou até a forma que me aperta contra teu corpo.
Eu posso falar também das coisas que causo em você. Tipo o barulho que você faz quando mordo seu pescoço e você tenta controlar o arrepio, mas que acaba me puxando pra mais perto, como se temesse que eu parasse com isso. De como você fica lindo quando fecha os olhos enquanto eu passo as unhas de leve sobre tua barriga. A tua cara de quem não vai aguentar por muito tempo se manter longe de mim quando eu respiro fundo no teu ouvido.
Na verdade, posso citar até a visão de terceiros sobre esses nossos momentos. Eles dizem que a gente muda a expressão quando nos encostamos, que todos percebem quando a gente quer se beijar. E eles sempre acertam, percebem até antes de nós. Mas quero mesmo é falar de outra coisa.
Eu quero escrever sobre esses nossos momentos falando do meu óculos. Sim, sobre ele. Ou melhor, sobre como ficam as lentes quando a gente tá junto. Eu não sei se é meu rosto que esquenta, o seu, talvez o nosso, mas elas sempre embaçam. Elas não ficam assim quando falamos apenas oi, ou quando apenas nos abraçamos. Mas basta a gente se olhar diferente que isso acontece. E às vezes acontece quando chego em casa, como se perder o contato bom contigo fizessem elas perderem o foco. Mas também acontece quando a gente tá junto, parece que ela é o tipo de verificador que indica que tivemos algo bom, especial, durante os minutos que ficamos juntos.
Eu amo ter você embaçando minhas lentes.
Eu quero ter você embaçando minhas lentes por mais tempo.
Eu quero que esse tempo dure mais do que sei que vai durar.
Quero meus cabelos enrolados em ti, minha pele arrepiada com um simples gesto, eu entregue a você quando você encosta em mim. Quero mais abraços colados, mais apertões pra que o abraço fique ainda mais apertado, você sem conseguir evitar se arrepiar, tu entregues, de olhos fechados e sorriso de lábios colados quando percebe que não vai se controlar.
E eu quero, além de tudo, minhas lentes embaçadas. Porque elas embaçam ao ler a gente, ao saber o que gente sente, ao perceber que a gente gosta de se amar.

Como aconteceu


Eu tentei. Na verdade, eu achei que seria tão fácil que nem precisaria tentar. Mas juro pra ti que assim que percebi eu tentei, com todas as minhas forças eu tentei não me apaixonar. Mas eu me apaixonei por você, e só agora vejo que foi perca de tempo tentar.
Eu me esforcei porque eu sabia do nosso trato, dos seus e dos meus problemas. Lutei porque eu sabia que eram traumas demais para confiança de menos. Intimidade que não cabia no tempo de vivência. Porque eu nunca fui de acreditar em coincidência. Eu tentei, mas a realidade é que fracassei.
A gente começou confiando em uma versão do outro que provavelmente nunca existiu fora dos sonhos que o outro tinha de ser alguém bem resolvido. Temos tantas neuras corporais e emocionais que acreditamos que ninguém iria ficar por muito tempo, nunca ficaram, não foi mesmo? Mas daí chegamos quebrando as regras, reclamando por um lugar que parecia nosso por direito. Sei a hora exata em que pude ouvir, durante um de nossos beijos cheios de desejos, teu interior dizer ao meu: se teu coração ainda não tinha dono, agora o dono sou eu. E eu deixei você entrar, naquele beijo eu pulei do precipício com uma certeza: eu não tinha mais controle de nada.
Mas ainda depois disso eu tentei. Falei pra mim mesma que podia puxar uma corda e voltar para o topo, onde eu estaria segura e confortável. E eu procurei essa corda. Procurei defeitos em você, arrumei mil motivos, encuquei com milhões de coisas, mas não adiantou. Eu só acabei te gostando no pacote completo, sem poder usar a desculpa que era ilusão. Mais uma vez eu fracassei.
Agora eu sei e você sabe do meu fracasso. Também sei que você pulou junto comigo, porém com alguma corda especial que te ajuda a voltar ao topo, e isso te deixa numa situação mais confortável. Sabemos que de qualquer forma fracassamos juntos, assim como sabemos que não há mais volta.
Mas tudo bem, agora temos um novo trato e eu prometo tentar. Prometo tentar ignorar, não sentir, fingir que tudo que sinto vai deixar de existir. Mas se mais uma vez eu fracassar, me entende, tenta me entender. Desde que pulei eu não tenho nenhum controle sobre qualquer coisa relacionada a você.


Nosso fim


Você não disse, nem eu, mas eu sei e você também sabe. Estamos caminhando para o fim. Embora nenhuma palavra tenha sido dita, nós dois sabemos que está chegando nossa hora. É hora de ir embora. A gente sente, embora tente não sentir, a distância tomar conta, os detalhes perderem a importância. Eu não queria, meu amor, e eu sei que você também não, mas estamos chegando ao fim.
Eu queria ter te amado do mesmo jeito para sempre, eu desejava que você tivesse conseguido fazer isso em relação a mim também, mas a verdade é que o leite esfriou e estamos na hora do nosso fim. Queria que teus toques ainda provocassem os mesmos arrepios de antes, que estar perto de ti me deixasse com aquela sensação boa de sempre, mas chegou nosso momento e eu não acho que teremos muito mais tempo.
A gente deveria ter aceitado isso meses antes, teríamos nos desgastados menos, nos suportaríamos mais, o carinho para uma amizade seria maior. Mas quem pode nos julgar? Eu não me imaginava sem ti até dias desses, tinhas uma parte enorme de mim que eu não conseguia nem mensurar. E eu sei que era tudo recíproco, então, quem pode nos julgar? A gente só queria tentar e voltar a se amar.
Mas está chegando o nosso fim.
Estamos caminhando para o fim.
Esse texto, meu amor, é a prova real que não há mais jeito, precisamos de um fim.

Teríamos conseguido


Talvez seja mórbido divagar sobre isso logo agora, mas hoje concluí que teríamos dado certo. Isso se eu tivesse sido mais corajosa e você menos namorador, é claro. Mas a gente teria tido um bom futuro.
Você continua sendo a pessoa que mais me compreendeu em toda esses vinte e poucos anos, eu continuo te entendendo só com um olhar. A gente ria da piada ruim um do outro, sabia escutar como ninguém, nos entendíamos mesmo quando tínhamos as piores brigas do mundo. A gente se cuidava e se preocupava como só quem tem futuro é capaz de fazer. Éramos perfeitos um pra o outro e todo mundo sabia, mesmo nós.
Nós éramos absolutamente diferentes, mas perfeitamente iguais. Você gostava das músicas mais ruins do mundo e não ligava que eu falasse isso, porque entendíamos que não precisávamos concordar sempre. Eu lia livros bobos e você sempre ria, mas acabava me dando um desses exemplares porque sabia que eles eram uma parte importante de mim. Nós tínhamos uma compreensão e espaço que eu não vejo mais. Esses exemplos bobos é apenas pra não contar das coisas mais íntimas.
Fomos capazes de ouvir quando o outro contava dos seus encontros com outras pessoas, a gente escutava e não reclamava. Viu? Nós nos amávamos na mais perfeita ordem das coisas, e teríamos dado certo por isso.
É mórbido e sem chance de acontecer, mas a gente seria um belo casal. 

Lembrei de você


Confesso que não penso em nós como antes e também confesso que beijei seu amigo. Sim, aquele que você reclamava que não tirava os olhos de mim. Mas hoje eu estava relendo alguns textos antigos e encontrei cerca de uma dúzia só sobre você. Dei boas risadas de algumas coisas que li, lembrei de bobeiras nossas que o tempo – e talvez os acontecimentos entre nós – me fez esquecer. Você era uma figura!
É engraçado como a gente deixou que as pequenas brigas nos roubassem as coisas boas que fizemos juntos. Eu não queria esquecer das risadas que eu dava quando te fazia cócegas, era engraçado como eu sempre acabava rindo tanto quanto você. Na época eu jurei para mim que nunca esqueceria de como você sabia o momento certo de fazer piadas sem graças só para quebrar o gelo. E claro, de como você era o cara mais irritante que uma garota de dezessete anos poderia lidar.
O que foi que aconteceu que roubou tudo isso da gente, heim? Como foi que deixamos tudo isso se perder e chegar ao ponto que não sabemos mais falar sobre outro sem resumir em “legal”? Você era mais que legal, garoto. Você foi especial.
Hoje reli meus textos antigos e lembrei de você. Eu revivi você. E hoje eu queria dizer que sou grata por tudo que você me deu a chance de viver.

Moça bonita


Moça bonita, mas de coração apertado
há tanto dentro dela que nem cabe
exala amor, exala saudade
exala uma culpa que não lhe cabe.

Moça bonita que não sabe a verdade
amor não se pede, se dá
e se não recebido não tem porque se culpar
amor de verdade ele chega pra somar.

Ah, moça bonita
olha o lado e vê o mundo
vê que tudo agora começou
que você não perdeu, Deus te livrou.

Minha moça bonita
olha pra o lado e me vê
vira teu rosto bonito
enxerga que ao teu lado há quem gosta de você.

Os corpos falam


Eu sempre achei quem a gente fosse bom em fingir, visto que a gente já enganou muita gente com o nosso discurso de apenas amigos. Mas esses dias, depois de uma amiga minha vir falar de você, eu percebi que a gente mente mal, e tudo isso porque os nossos corpos falam.
Neste mesmo dia em que minha amiga falou de você, eu te vi. Vi quando você tentou fingir que não tinha me visto, mas como ficou de olho em mim enquanto eu fingia não olhar para você. E percebi em mim a ânsia de passar por onde você estava, fingindo pra mim mesma que era apenas pra ver o quanto você iria manter aquela pose.
A gente se entrega quando você fala mais alto ou coça a garganta toda vez que passa por perto de mim e eu não te vejo, ou no momento em que de todos os lugares no mundo, você prefere estar perto de onde eu estou. Eu deixo claro nas vezes em que me remexo na cadeira, parecendo instantaneamente desconfortável, ou nas vezes em que fico me virando e te procurando nos lugares.
A gente se entrega até quando ri.
Quem nos conhece direito sabe que a gente muda, e talvez não falem nada por não saberem de tudo que já rolou. Eles temem nos contar o quanto mudamos quando estamos perto um do outro porque acham que a gente vai pensar poderíamos ter tido algo que agora não dá. Mal sabem eles que essa dança a gente já dançou faz tempo e que a gente não daria certo nunca. É por isso que nossos corpos falam, porque embora nossa mente já tenha entendido, depois dos nossos beijos nossos corpos ainda custam a entender.

Carta para o futuro


Primeiro de tudo, eu espero que você esteja bem. O que faz com que eu também espere que você tenha mudado um pouco, parado de se cobrar tanto. Eu sei o quanto isso pesa em você. Então, que o peso tenha aliviado e que você esteja bem.
Dependendo da data que você me leia, talvez você já esteja longe, tomara que esteja. Mas eu só queria te dizer que caso não tenha conseguido, eu te entendo e não vou te crucificar. Talvez você já esteja fazendo isso muito bem sozinha. Mas deixa eu te dizer mais uma coisa...
Tá tudo bem mudar. Embora eu ainda não aceite isso tão bem, torço pra que você já tenha entendido isso.
Talvez os sonhos tenham mudado, a realidade e as prioridades também. Eu jamais te cobraria ser a mesma de sempre. Seu maior defeito foi justamente tentar se enquadrar no mesmo molde e sofrer quando claramente não cabia.
Caso você leia isto quando tudo estiver uma bosta, só lembra que você já esteve nessa posição antes e conseguiu passar, a gente sempre consegue, se quer saber. Se você não acredita, tentar lembrar que isso é apenas sua mente tentando te pregar uma peça pela milésima vez. Ela sempre fez isso, lembra?
Mas caso você esteja muito bem, eu só te digo que estou igualmente orgulhosa. Talvez um pouco mais feliz porque é sempre bom saber que tudo correu bem e saiu como planejado, mesmo que agora eu nem saiba qual é o plano que você tá seguindo. Parabéns!
Só quero te dizer que eu vou tá sempre orgulhosa de você e torcendo pra que você acredite nisto, que já seja capaz disto. Você passou por uns maus bocados, menina. Então só respira e lembra-se de tudo isso pra que perceba o que ainda me custa acreditar.
Que tu tenhas muitos sorrisos e que valorize cada pessoa e coisa que te trazem eles. Que tu tenhas mudado muita coisa, mas que nunca tenha perdido essa tua facilidade de rir mesmo quando quer chorar. Que tudo corra bem, ou melhor, que tu vejas que no final tudo vai ficar sempre bem. 

Nós


Antes de escrever sobre a gente eu fui reler alguns outros textos meus. Fui buscar uma inspiração maior que a gente, porque embora escrever sobre nós esteja sempre em minha mente, eu não conseguia pensar em um bom começo. Talvez porque o nosso começo não tenha tido jeito de começo.
A gente só ficou se encarando sem nem saber se era mesmo correto rolar alguma coisa. E quando as olhadas tornaram-se conversas a gente já foi logo falando do que é, provavelmente, nossa maior diferença. Sem contar o fato dos olhos atentos de quem nos rodeava. A gente começou mesmo depois que você foi embora.
E a gente começou tudo errado.
Talvez a verdade seja que nós dois, juntos, seja errado. Assim como achamos no início de tudo.
Ou talvez não, a soma de nós dois é confusa demais pra entender em apenas algumas palavras.
A verdade é que boa parte desse nosso nós se resume a isso. Aquelas idas e vindas, aquele certo e errado, o não e o sim. E pra mim, a pessoa mais insegura que conheço, isso é bem mais do que eu posso compreender. Então vem o medo.
Medo de que você possa ser o certo. De que você seja ainda mais errado do que já é. De que eu me torne o erro. E de acreditar que possamos ser um acerto.
A gente dar certo seria o final mais surreal da história. Seria surpresa pra qualquer um. E eu não conto com essa possibilidade. Eu sempre gostei do óbvio. Do prático. Da ausência de grandes surpresas.
E é por isso que assim como eu não conseguia fazer um início, eu também não sei como encerrar esse texto. Porque eu não sei como vamos terminar. E eu não quero pensar.
Eu prefiro que por hora tudo continue assim. Empurrando com a barriga? Talvez. Mas eu prefiro chamar daquele velho clichê. Eu chamo de viver um dia de cada vez.

Sobre diferenças



Dia desses, eu estava sentada com alguns amigos e lembrei-me do quanto eu tinha uma impressão diferente deles antes de conhecê-los melhor. Não falo daquele tipo de birra boba que a gente tem com alguém que nunca falamos, digo sobre o que me veio à mente quando olhei o óculos de um, a tatuagem do outro, o gosto musical do terceiro... Do que também veio à mente deles quando me viram sempre de saia ou vestido, usando óculos e falando pelos cotovelos.
Eles são tão diferentes do que eu pensava, eu sou diferente do que eles imaginaram.
Parei e pensei em quantas vezes nessa vida a gente não faz isso, não concluímos que conhecemos alguém apenas pelo que vemos e pela meia dúzia de palavras que trocamos. Grande erro.
Aquele rapaz mais diferente de mim se mostrou alguém receptivo para ouvir do meu mundo, mesmo entendo tão pouco. E aquele que mais se parecia comigo foi um dos que mais tive que me adaptar às nossas diferenças para que eu não deixasse de admirá-lo. Afinal, quem tem culpa por não ser o que a gente esperou que a pessoa fosse? Por que querer que as pessoas se comportem da maneira que a gente achou que elas eram?
O mundo é volátil, nossas ideias também. E as nossas conclusões mais ainda.
Não importa quantas vezes a gente olhe para um alguém e quantas conclusões possamos tomar com essas olhadas, se a gente não parar para conhecê-la de verdade, nunca saberemos quem essa pessoa é. E essa é a única verdade.

Ninguém, por mais óbvia que essa pessoa possa ser, é apenas o que a gente vê. Essa é a conclusão que devemos ter.

Entre, retire e vá embora


A gente pode nunca ter chegado a ficar realmente juntos, mas tanto eu como você deixou muito de nós no outro e está na hora de cada um recolher o que foi deixado.
Você, pela primeira vez em todo esse tempo, tomou a iniciativa e foi o primeiro a apanhar tudo que eu deixei aí e jogar fora. Se não jogou, com toda certeza guardou em mais uma de suas inúmeras gavetas de sentimentos que morrem calados. Já eu, mais uma vez, fui ingênua e preferi deixar tudo do mesmo jeito que você deixou, meio bagunçado, sabemos. Mas preferi não mexer em nada pra o caso de você mais uma vez voltar e fingir que nada tinha acontecido.
Antes seu jeito era algo que eu achava engraçado e que me fazia acreditar que tudo era tão forte que no final você sempre percebia que a pessoa era eu. Só que não parece que você vai voltar, e, caso volte, não acharei graça e muito menos romântico.
Tudo, exatamente tudo, um dia cansa. Não importa o que seja. Um dia vamos olhar e ver que se esse tudo virou excesso, ele também ficou cansativo. E eu cansei.
Cansei desse seu jeito bobo de agir. Das suas graças. Cansei das suas grosserias, mesmo que poucas. E também cansei do seu excesso de fofura, como sempre chamei. Cansei de mim com você, se quer saber. Mas, principalmente, cansei da espera.
Então vou fazer como você, vou tirar tudo que é seu daqui. E se puder me fazer um favor, retire aquelas coisas que só podem ser tiradas por ti. Mas na hora de fazer isso, não precisa me olhar, nem dizer que lamenta tudo e que ainda é o melhor amigo, não preciso de mentiras.
Retire tudo, não deixe nem aquilo que parece não ter importância. Acabe com tudo, seja rápido e me ignore ao máximo. E não se esqueça de trancar tudo na hora de sair e jogar a chave fora, porque caso queria novamente entrar, vai ver que você mesmo trancou tudo e acabou com as suas chances de voltar.

Hoje eu falei de você


Hoje eu falei de você. Contei coisas que eu nunca tinha dito antes.
Desde que tudo passou que você se resumiu a explicações simples: “Meu ex melhor amigo”, “o amigo que eu já fui apaixonada”, “o meu amigo que se apaixonou por mim”, “o cara que eu mais gostei na vida”. Sem detalhes profundos, sem histórias só nossas, sem lembranças muito íntimas. Mas hoje foi diferente, hoje eu realmente falei de você.
Contei sobre meu medo de confiar nas suas palavras, de como eu me sentia quando você começava a se relacionar com outra pessoa, da minha espera para que você lutasse por mim, coisa que nunca aconteceu de verdade. Acabei contando dos erros que eu sei que cometi, dos que eu ainda penso se foram mesmo erros, daqueles que eu cometia em nome da nossa amizade. Sim, eu hoje falei realmente de você.
Confidenciei sobre sua importância para mim tanto antes, como hoje. Do meu temor que se tornou realidade de qualquer maneira, de como foi difícil me adaptar a uma vida sem você, da minha dúvida se deveria ou não ter tentado. Contei desse nosso “e se” e de como é difícil viver com ele, e também da forma que até hoje ele interferi na gente quando nos falamos. É, hoje eu falei de nós.
Coloquei para fora o porquê de eu ter tanta certeza que nunca mais amei ninguém, da minha fé que existe mesmo amor, da minha revolta por ter dito isso a mais alguém depois de você, mesmo quando claramente ele não mexia comigo como tu mexestes. Quando vi, já tinha falado que eu chorei de verdade quando você descobriu tudo e de como foi dolorido te deixar seguir, porque, meu bem, doeu demais.
Contei em detalhes o porquê de eu nunca ter dito um sim de verdade e o motivo que me faz não me arrepender tanto disto. Eu achava e ainda acho que foi melhor. Eu temia não estar pronta, não ser o melhor, não poder ser inteira, temia coisas que na época faziam todo sentido e, talvez, por isso, tivesse sido uma grande catástrofe ter tentando algo. Eu não estava pronta. Sim, eu também falei só de mim.
Depois eu ri enquanto lembrava de como éramos dois idiotas que riam de qualquer bobeira, das vezes em que eu levava bronca por não controlar a gargalhada com suas brincadeiras, do seu sorriso todo idiota quando eu te encarava. Mas também senti um aperto com a lembrança de que a gente nunca falou disso abertamente, pessoalmente. Será que algo teria sido diferente?
Garoto, foi difícil e ao mesmo tempo libertador, mas eu falei demais de você. E depois de contar tanto, de lembrar de tanta coisa, percebi que não contei quase nada. Ainda tenho tanta coisa só sua aqui dentro, tantas histórias apenas nossas, cada bobeira que o tempo já começou a me fazer esquecer.
Hoje eu falei de você, falei muito, mais que nunca. Mas hoje me dei conta que ainda tenho muito mais de você aqui dentro.